sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A Surpresa de Mariazinha

Mariazinha estava inquietissíssima. Não apenas porque aquele fosse seu sexto aniversário ou porque em razão da festa sua mãe esquecera de lhe dar suas drogas de hiperatividade — não. Ocorria que naquele sábado, 13 de setembro de 2008, Mariazinha seria mãe.

Uma semana antes fora questionada sobre que presente lhe agradaria ganhar, ao que a menina respondeu quarenta e uma bonecas, uma irmã gêmea, mil reais, a Disneylândia e uma nuvem. O pai e a mãe se riram, como era bonitinha, e ele tentou explicar à filha que não podia comprar todas essas coisas, e que ela teria de escolher. A menina cuidou por um momento e respondeu, certa — certissíssima:

"Eu quero um cachorro.".

O pais se entreolharam, como era bonitinha, a mãe tentou explicar que um cão era muita responsabilidade, que teria que passear etc., quem sabe um hamster?

"Eu quero um cachorro.", impassível, "Ou melhor, uma cachorra.".

O pais se reentreolharam, como era bonitinha, o pai fez uma cara de que antes-isso-que-um-parque-ou-corpos-gasosos, que a mãe imitou.

"Está bem, filhinha, papaizinho vai comprar uma cachorrinha lindinha pra você, e você vai ser como uma mãezinha para ela!".

Mariazinha sorriu; mais uma vez tinha driblado os pais, como eram persuasíveis. Só mais tarde ocorreu ao pai a possibilidade de que a lista de pedidos absurdos talvez fosse um estratagema para diminuir o impacto do pedido real e torná-lo extremamente simples, a qual descartou, como era inocentezinha!, jamais pensaria coisas assim.

A menina começou a contar os dias. Na segunda-feira, a mãe contou ao pai que, na escola "Ela fez xixizinho nas calcinhas, acredita, amorzinho? Como está nervosinha!", ao que o pai assentiu.

Na terça-feira, Mariazinha contou para as colegas que ia ganhar um cachorro, ou melhor, cachorra, e que se chamaria Bolachona. Uma das meninas riu e disse que o nome era muito feio.

No dia seguinte, a professora ensinou que na Europa tinham ligado uma máquina que podia criar buracos negros — Mariazinha já os tinha visto em desenhos animados —, que poderiam destruir a Terra e matar todos nós. A menina que tinha rido no dia anterior faltou aula, porque "Alguém foi muito malvado e colocou alguma coisa na comida dela.", explicou a professora. Quando chegou em casa, os pais consolaram Mariazinha, dizendo que "A sua professora é muito burrinha, minha filhinha, nada de mal vai acontecer!"

Na quinta-feira, a mãe a deixou ficar em casa, porque "Falta muito pouquinho para a sua festinha, pode descansar!". Na sexta, idem.

Portanto, no sábado, Mariazinha estava inquieta, inquietissíssima. A celebração começou cedo, num cerimonial conhecido daquele bairro. O local fora decorado com motivos de um desenho animado e uma enorme faixa rosa exibia "Festinha da Mariazinha" escrito numa fonte tipográfica altamente clichê.

Depois que os convidados terminaram de chegar, lá para as onze da manhã, Mariazinha começou a abrir seus presentes com pressa, rasgando papéis e cartões furiosamente.

"Pronto, papai, terminei de abrir. Cadê?" e sorriu de orelha a orelha. O pai se riu, como era bonitinha, e foi buscar.

Vinha voltando, a menina quase tendo espasmos. A cadela era uma poodle pretinha e ainda filhote. Mariazinha estendeu os braços, quase chorando; o pai se aproximava, quase lá. Mas antes que a cachorra tocasse as mãos volantes da garota, ouviu-se um barulhão e uma ventania desgraçada levou o animal voando. Muito rápido, teto, cadeiras, mesas, pessoas, tudo etc. começaram a voar em direção ao céu, que escurecia. O pai segurou a filha com toda força que pôde, mas apenas tempo suficiente para vê-lo, enorme, poderoso, gravitacional: estava ali o buraco negro para quem quisesse contemplar. Depois,
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